Edição 2025

“Cidade Alienante”

Textos selecionados para o e-book:

“Por trás das flores” de Nyx

“Um dia trans neuroatípico” de Michelle dos Anjos

“Castanha” de Victoria Catarino

“O caleidoscópio da vertigem” de Helena Ferreira

Autora convidada:

“Bolinhos de limão do terceiro andar” de Paula Groff

Autori em destaque:

“Sempre estivemos aqui: Memórias queer e muçulmanas” de Samra Habib

Em colaboração com a editora Vírgula d’Interrogação

A Repórter das Vibrações

Virgínia Quaresma (1882-1973), natural de Elvas, no Alentejo, filha de mãe brasileira e pai alentejano, destacou-se no jornalismo de investigação tendo sido a primeira mulher jornalista profissional, em Portugal, numa altura em que mais de 2 milhões de mulheres eram analfabetas.

Pacifista e ativista, advogava a “favor do colectivo em detrimento do individualismo”, pelos direitos humanos, pela educação das mulheres e insurgia-se contra a violência, especialmente contra a violência doméstica e o feminicídio, flagelos sociais, no seu tempo como no nosso. Perante um caso de feminicídio, Virgínia, não se limitava a redigir a reportagem, ela acompanhava a investigação e divulgava o nome dos agressores nos jornais para os quais escrevia, contribuindo para que fossem levados à justiça. (Lousada 2022)

É apelidada pela revista ABC (1920-1932), “a repórter das vibrações”, porque galga a cidade à procura de “eventos e de sensações” e porque se coloca na “pele do entrevistado”, criando uma atmosfera de proximidade, sendo capaz de captar o seu íntimo. Para Quaresma, não existiam barreiras, chegava a pessoas de classes sociais diferentes e “entrava em todo o lado: sedes de Câmaras, Ministérios, bancos, sede do Governo, Bolsa (…)”. (Seixas 2022)

Contemporânea de Judith Teixeira, Virgínia era assumidamente lésbica, facto biográfico que é tendencialmente ocultado “nas referências que lhe são feitas” (Jesus 2022), trazendo à conversa o efeito lésbica-fantasma, que consiste no apagamento dessa dimensão da vida de figuras públicas - quando não no apagamento total da pessoa face à história. No caso de Quaresma, consiste “num reconhecimento público sobre a sua vida e, simultaneamente, num disfarce sobre a homossexualidade, preferindo tratar as suas amantes, com quem partilhava casa, como amigas, damas de companhia ou governantas.” (idem)

Assim como Virgínia fez a ponte entre jornalismo e ativismo, também nós queremos construir a ponte entre criação literária e ativismo. Pacifistas e pró-democracia, como Virgínia, é ela a inspiração, e é ao seu lado que avançamos, para a 3ª edição do nosso concurso neste inequecível ano de 2025.

Referências

Jesus, I. (2022). Nomear os interditos. Faces de Eva. Estudos sobre as mulheres, 47, 7-11

Lousada, I. (2022). Virgínia Quaresma nos trilhos da violência contra as mulheres. Convergência Lusíada, 33(47), 107-130.

Seixas, M.A. (2022). Uma mulher singular. Jornalista e feminista. Faces de Eva. Estudos sobre as mulheres, 47, 19-32.

Edição 2024

“Corpas, Outras”

Texto vencedor:

“Açucenas” de Paula Groff

Workshop com Helena Ales Pereira:

“Corpas, Copos e Compas” de Mean é.t

Textos incluídos no e-book:

“Insónia” de Laura Falésia

“Corpo d’água” de Inês Silva

“A ditadura do estar” de Bê Duarte

“O rouxinol” de Juliana Garbayo

Deitei fogo ao velho espantalho a que os fracos chamam «convenção» (…) e à chama desse estranho incêndio, ergui então bem alto esses novos motivos de beleza (…)
— “De Mim”, Judith Teixeira, 1926

JUDITH TEIXEIRA é a homenageada desta edição

Judith Teixeira (1880-1959), poeta do círculo futurista português é, no início dos anos 20, quando a ditadura se começa a instalar, o primeiro caso de uma mulher que é banida da nova ordem social, burguesa e puritana (Almeida 2010, 56), ao ver o seu livro “Decadência” (1923) ser queimado por ordem do Governo Civil de Lisboa. Outros poetas são implicados nessa demonstração de força e censura, conhecida por «poetas de Sodoma», mas é Judith, a única mulher do grupo, que é «completamente apagada da história» (ibidem), embora não imediatamente.

No mesmo ano em que faz a apologia da sua vida e obra na conferência «De mim» (1926), Marcello Caetano apelida-a de «desavergonhada» (Lusa 2015), e, no ano seguinte, é publicado o seu único livro de contos «Satânia» (1927), a que não chegará a fazer correções por alegada ausência do país (Barbosa 2014, 9). Depois disso não se sabe mais nada dela, Judith Teixeira desaparece da vida cultural e social portuguesa.

Segundo a jornalista e investigadora São José Almeida, Judith foi alvo de dois aspetos fatais, e invisibilizadores, da ideologia patriarcal: a dominação masculina e a heteronormatividade (Almeida 2010, 57), já que se trata de uma autora, uma mulher, que incorpora e se atreve a explorar um grande e proibido tema, ou simplesmente ignorado e desvalorizado, o lesbianismo, e o seu tratamento enquanto tema literário.

Ainda que queiramos prescindir da metalinguagem poética e queiramos premiar textos em prosa, porque os textos em prosa têm ser claros e chamar os bois pelos nomes (Horta 2019), o espírito da poeta futurista Judith Teixeira está vivo neste projeto, e é ela a homenageada desta edição.

Referências:

Barbosa, Sara. 2014. “Quem tramou Judith Teixeira (Uma História com Fantasmas)”. estrema: revista interdisciplinar de humanidades 4, 1-16, https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/43979/1/Quem_tramou_Judith_Teixeira._Uma_histori.pdf 

Almeida, São José. 2010. “Ainda, apenas fantasmas”. LES Online, 2:2, 52-59. https://lesonlinesite.files.wordpress.com/2017/03/apenas-fantasmas.pdf 

Horta, Bruno. 2019. “Eduardo Pitta: Uma figura pública não tem a liberdade de não divulgar a orientação sexual”, https://personagratablog.wordpress.com/2019/10/13/eduardo-pitta-uma-figura-publica-nao-tem-a-liberdade-de-nao-divulgar-a-orientacao-sexual/

Lusa. 2015. “Obra da escritora esquecida do modernismo Judith Teixeira chega hoje às livrarias” https://www.rtp.pt/noticias/cultura/obra-da-escritora-esquecida-do-modernismo-judith-teixeira-chega-hoje-as-livrarias_n814673

Prémios:

Prémio Claude Cahun - 1000€:

“Daisy” de Cláudia Zafre

Prémio Marcel Moore - Lab. criativo com Helena Ales Pereira

“Topologia de um beijo” de Prudância M.

Textos incluídos no e-book:

“Daisy” de Cláudia Zafre

“Topologia de um beijo” de Prudância M.

“Chupa-Meles” de Lora

“Isto que se sente tem nome” de MNE

“Maria Faustina caiu em tentação” de Al Berta

“Voz-Off” de Alice Erce

Claude Cahun & Marcel Moore
Walking in Jersey

Claude Cahun & Marcel Moore

Artistas multifacetadas, ativistas, revolucionárias, surrealistas, pioneiras de um espírito inquisitivo e combativo, exploraram questões sobre representatividade e identidade. Subverteram convenções, criando um imaginário que desafia qualquer categorização. Foram figuras proeminentes no cenário surrealista francês da primeira metade do século XX, próximas do círculo literário lésbico modernista, onde se incluía a escritora Djuna Barnes.

Formaram uma parceria criativa e eram também um casal. Uma colaboração de quatro décadas, onde a esfera privada e a natureza do seu trabalho se aliaram, estilhaçando expectativas socioculturais e tradições artísticas. Quando Jersey, a ilha onde viviam, foi invadida pelas tropas nazi, rebelaram-se contra o regime opressor, utilizando a arte e a sátira como uma ferramenta de retaliação e foco de resistência. Produziram um legado inspirador, alimentadas por uma narrativa de metamorfose, rebeldia e liberdade, que se mantém atual.

Claude e Marcel - pseudónimos de Lucy e Suzanne - permanecem juntas sob uma única lápide inscrita com duas estrelas de David.

Nesta nossa primeira edição, e em jeito de homenagem, são elas que dão nome aos nossos destaques.

  • Tamara Alves (Ilustradora 1ª edição)

    Tamara Alves é artista visual e ilustradora. Partindo da ideia de que os nossos instintos são o que nos define, a artista invoca, no seu trabalho, um universo feminino de figuras humanas e animais em interação com paisagens naturais e objetos, imbuídos de forte carga simbólica. A literatura tem um papel fulcral no seu imaginário. A Tamara foi a primeira pessoa que contactámos para arrancar com o projeto. O «sim» dela foi determinante para termos avançado nesse momento, com todo o ânimo. A ela, fica aqui registado, o nosso muito obrigada.

  • Bárbara Sereno (Ilustradora 2º edição)

    Bárbara nasceu em Lisboa em 1988 e tem vivido em diversos locais desde a sua idade adulta. Sempre em movimento entre o campo e as cidades da Europa, Bárbara conheceu vários tipos de empregos, diferentes estudos, licenciou-se em jornalismo e experimentou a fotografia, mas foi finalmente no desenho e na ilustração que encontrou o seu meio para contar histórias. A maior parte de seu trabalho é inspirado em temas do dia a dia, intimidade, solidão, medos, amor e música.

  • Fatumata Djabula (Ilustradori 3ª edição)

    Fatumata tem 21 anos e nasceu em Lisboa, por pais guineenses. É artista visual, plástico e estudante de Ciências Sociais. O seu foco artístico passa pela exploração e criação de imaginários, realidades e identidades pretas e queer, - representando mais do que o ato de pintar imaginários, mais ou menos surrealistas, mas também de (re)criação e reposição de realidades imaginadas, destruídas e/ou interrompidas, configurando-se em pinturas de corpos e cenários afro-queer centrados, em prol de uma mutação de intersubjetividades.